segunda-feira, 30 de julho de 2007

O Solo como organismo, por Attila W.M.

O Solo como Organismo - I
autor: Andreas Attila de Wolinsk Miklos
I - O SOLO
Animais (principalmente formigas, cupins e minhocas) e vegetais impõem, através de seus
comportamentos, um ritmo dinâmico na evolução dos solos. Esse ritmo dinâmico imposto pelos seres vivos desenvolve um papel regulador insubstituível: contrabalançando o empobrecimento superficial do solo imposto pela “lavagem” (lixiviação, lessivagem, erosão mecânica) das chuvas; renovando o solo a partir da transformação das rochas. Formigas e cupins são os principais responsáveis pela formação da estrutura granular muito fina (microagregados arredondados) dos latossolos e pela organização atual de stones-lines e de “horizontes sômbricos” (soterramento a partir do remonte vertical de material profundo do solo para a superfície); feições típicas de regiões tropicais. As contribuições desses animais na transformação da cobertura pedológica correspondem a fenômenos de escala continental. Sistemas agrícolas biocidas que não respeitam o funcionamento biodinâmico da paisagem interferem na renovabilidade dos solos. O futuro desse sistema é o cultivo sobre um meio estéril.
O FUNCIONAMENTO BIODINÂMICO DA PAISAGEM
I. A POLARIDADE AGREGAÇÃO (ASSOCIAÇÃO) - DESAGREGAÇÃO
(DISSOCIAÇÃO) COMO FENÔMENO GLOBAL

1 - Comportamento construtor dos seres vivos: a polaridade superfície - profundidade.
Em superfície, formigas, cupins, minhocas e vegetais causam agregação da matéria mineral. Tal
fenômeno se materializa nos seguintes fatos.
Formigas e cupins endógenos: formação de agregados granulares (<1> 10 m). Tais materiais
resultam das escavações desses animais: câmaras de reprodução, alimentação, dejeção, canais de
comunicação, etc. As rochas são sistematicamente atravessadas pelos canais biológicos. A escavação(coleta de material) constitui uma desagregação. Canais de cupins já foram observados a 55 m de profundidade (LEPAGE, 1985).
As raízes dos vegetais desempenham dois mecanismos desagregadores: mecânico e biogeoquímico. Respectivamente, desagregação mecânica das rochas através da perfuração e crescimento radicular e alteração biogeoquímica dos minerais (desintegração) das rochas através da troca iônica, da ação de ácidos orgânicos, etc. O recorde de profundidade de raízes é de 140 m.
2 - Fenômenos hidrogeoquímicos: a polaridade superfície - profundidade.
Em superfície, a ação da água induz a dissociação da matéria mineral: dissolução dos minerais
(hidrólise); migração das argilas; erosão mecânica superficial. Os agregados dos horizontes superficiais
são desestabilizados e têm sua argila evacuada pelos diferentes processos; restam, então, somente os minerais mais resistentes, os grãos de quartzo (areia).
Em profundidade, nas alteritas das rochas ou mesmo em camadas profundas do solo, ocorrem
neoformações minerais (argilas = matéria-prima do solo), muitas vezes através de reassociação de elementos (Si e Al) liberados em superfície (caulinita, gibsita, sílica amorfa, etc); processos esses relacionados à dinâmica da água.
3 - Polaridade entre o comportamento dos seres vivos e os fenômenos hidrogeoquímicos.
Em superfície: Animais e vegetais causam agregação (associação) da matéria mineral onde os
processos hidrogeoquímicos induzem dissociação da matéria. Em profundidade: Animais e vegetais causam desagregação (dissociação) da matéria mineral onde os processos hidrogeoquímicos induzem neoformação da matéria.
Podemos afirmar, ainda, que cupins e formigas coletam argila onde ocorre sua formação (em
profundidade), transportando-a para onde ocorre sua destruição (em superfície). Inseridos na paisagem, esses animais foram contrabalançando o empobrecimento superficial imposto pela “lavagem” das chuvas.
“Savoir faire”?
Animais e vegetais impõem um ritmo dinâmico na evolução da cobertura pedológica. Este ritmo
dinâmico - que se traduz na relação entre a ação da fauna do solo e dos vegetais e os fenômenos
hidrogeoquímicos (aqueles que causam dissociação e exportação e agregação e neoformação da matéria mineral) - corresponde a um dos principais processos do funcionamento biodinâmico global da paisagem.
II. AMPLITUDE DA AÇÃO DA FAUNA DO SOLO EM TERMOS DE ORGANIZAÇÃO
DO ESPAÇO.
Formigas, cupins e minhocas desenvolvem um papel na paisagem. Este papel está ligado diretamente aos seus comportamentos. Estes se traduzem em ações que acarretam transformações no meio.
As transformações na cobertura pedológica, provocadas por esses animais, correspondem a
modificações de natureza física e química: remonte vertical de material do solo e recobrimento dos horizontes superficiais; modificação da estrutura e da porosidade do solo (formação de agregados e construção de canais); incorporação de matéria orgânica. Essas transformações são conseqüentes de processos de transferência de material pedológico profundo para a superfície e de material orgânico da superfície para o interior do solo.
A questão que se coloca, então, é a seguinte: formigas, cupins e minhocas seriam responsáveis
apenas por transformações pontuais, localizadas, ou seus efeitos repercutiriam na escala da paisagem?

1 - Origem da stone-line e dos “horizontes sômbricos”.
(a) Stone-line.
A stone-line corresponde a um alinhamento de seixos paralelo à superfície topográfica; presente
no interior da cobertura pedológica sob uma camada espessa de solo (vários metros). A composição dosseixos é variada; normalmente ocorrem seixos de quartzito.
Freqüentemente, os seixos de quartzito atestam a aloctonia da stone-line com relação ao substrato rochoso subjacente, como no caso de Botucatu, onde o substrato é basáltico (MIKLÓS, 1986). Este fato levou vários autores (TRICART,1959; AB’SABER, 1962; SEGALEN, 1969) à seguinte interpretação: os materiais sobrejacentes à stone-line seriam de origem sedimentar, isto explicaria sua distribuição espacial atual.
No caso da cobertura pedológica de Botucatu (MIKLÓS, 1992) isto não ocorre, pois a stone-line
recorta a diferenciação pedológica lateral litodependente (litotoposeqüência arenito do Grupo Bauru - basalto do Grupo São Bento). O grau de filiação dos materiais sobrejacentes à stone-line com relação ao basalto, evidenciado a partir de certos atributos como a cor, a textura, a presença de ilmenita e magnetita, os teores de ferro total e as litorelíquias, aumenta de montante para jusante. O que torna impossível a hipótese da origem da stone-line por um recobrimento de materiais alóctones vindos de montante (pólo arenoso - arenito do Grupo Bauru).
Considerando a autoctonia crescente, de montante a jusante, dos materiais sobrejacentes à stone-line, o remonte vertical dos materiais profundos, realizados principalmente pelas formigas e cupins, constitui o único mecanismo capaz de explicar a origem da organização atual da stone-line, no caso de Botucatu.
(b) Horizonte sômbrico.
Horizontes sômbricos (Sombric Horizon; USDA, 1975) correspondem a horizontes do solo,
presentes em profundidade, que apresentam a coloração mais escura do perfil vertical; eventualmente com exceção do horizonte superficial organomineral.
Como, então, explicar a origem destes materiais escuros em profundidade? A organização da
cobertura pedológica de Botucatu (MIKLÓS, 1992), tal como ela se apresenta, não permite outra
interpretação, senão aquela dada para a origem da stone-line, ou seja, trata-se de um paleo-horizonte superficial que foi soterrado pelo remonte vertical realizado pela fauna do solo. O fato de a litodependência dos materiais sobrejacentes ao horizonte sômbrico, com relação ao basalto, aumentar de montante a jusante, confirma nossa interpretação.
A presença abundante de fragmentos de carvão vegetal no interior do horizonte sômbrico e suas
datações (C14) nos permitiram fazer uma estimativa da velocidade do processo biológico.
2. Quantidade de material remontado no soterramento do horizonte sômbrico e tempo
de formação.
As estimativas (massa = densidade do solo x volume) da quantidade de material remontado no
soterramento do horizonte sômbrico variam de 10000 a 13000 ton/ha (MIKLÓS, 1992). Esses valores são subestimados, pois não foi possível calcular as perdas posteriores ao remonte, seja por lixiviação, lessivagem ou erosão.
Os carvões vegetais, igualmente soterrados pelo remonte biológico, datam de 4400 anos BP (before present). Isto implica que: (a) o soterramento do horizonte sômbrico é posterior a 4400 anos BP e (b) o remonte realizado pela fauna do solo e estimado em 12000 ton/ha foi efetuado no máximo em 4400 anos; isso corresponde a perfil de solo de 1.5 a 2 m de profundidade. O que pode corresponder igualmente a uma subestimação, pois sabemos que o processo biológico não foi contínuo no tempo.
3 - Origem da estrutura granular muito pequena (microagregados arredondados) dos
materiais latossólicos.
No caso da cobertura pedológica de Botucatu (MIKLÓS, 1992), o conjunto dos horizontes
apresentando estrutura microagregada se distribui de maneira generalizada, de montante a jusante.
A estrutura microagregada constitui-se, no caso dos solos da área estudada, principalmente de
microagregados ovais de 20 a 500 mm de diâmetro, em empilhamento. A porosidade resultante é extremamente forte.
A explicação corriqueira dessa agregação baseia-se em fenômenos de natureza fisico-química, ou
seja, em legações estáveis de certas formas de ferro e de alumínio com a caulinita, decorrentes de estágios finais de intensos processos de intemperização. Tal teoria, porém, não explica a forma externa - oval, esférica, arredondada - dos microagregados.
Evidências encontradas em Botucatu (MIKLÓS, 1992) testemunham uma origem biológica: formigas e cupins. Essas evidências foram as seguintes: a aptidão desses animais a fabricarem microagregados ovais (“in vivo” ou “in vitro”); a forma oval dos microagregados constituintes dos solos; sua forte variedade em tamanho e em cor; a presença de micropartículas de carvão; o esqueleto interno triado, composto por grãos de quartzo inferiores a 100 mm (o diâmetro dos grãos de quartzo do fundo matricial do solo é variado: 30-2000 mm); a presença de orientações plásmicas periféricas e a identidade que existe entre esses microagregados, que constituem os materiais latossólicos, e aqueles construídos in situ pela fauna do solo, observados no interior dos biotúbulos, nos montículos de terra dos formigueiros e cupinzeiros, etc.
4 - Origem das estruturas superficiais dos solos: estruturas granular e grumosa.
Na cobertura pedológica de Botucatu (MIKLÓS, 1992) os horizontes superficiais (0-20, 30 cm) de montante e de jusante apresentam, respectivamente, estrutura granular (pólo argilo-arenoso) e grumosa (pólo argiloso).
A estrutura granular é composta por agregados granulares menores de 1 cm. As organizações
externa e interna desses agregados testemunham sua origem biológica: forma externa esférica; subestrutura em microagregados ovais; presença de micropartículas de carvão; esqueleto de quartzo fino triado. Esses agregados são idênticos àqueles elaborados pelas formigas e cupins.
A estrutura grumosa é composta por agregados grumosos de até 2 cm. Esses agregados
correspondem às dejeções das minhocas, que se solidificam à medida que perdem umidade.
Em conclusão, a amplitude da ação da fauna do solo em termos de organização do espaço é a
seguinte.
Na escala da cobertura pedológica de Botucatu Stones-lines, “horizontes sômbricos”, materiais latossólicos microagregados e macroagregados granulares e grumosos marcam, no tempo e no espaço, a contribuição desses animais na organização da cobertura pedológica.
Na escala continental Stones-lines, materiais latossólicos microagregados, macroagregados granulares e grumosos e, em menor grau, “horizontes sômbricos”, são organizações que têm ampla distribuição nas regiões tropicais.

2ª Conferência

2ª Conferência
A fazenda é concebida como uma individualidade agrícola coesa, auto–suficiente e diversificada,
buscando reduzir ao máximo o aporte de insumos externos, funcionando como um organismo autônomo.
O solo constitui um órgão nesse organismo, que contém forças etéricas e astrais. Corresponde ao
diafragma humano, que separa sistemas de órgãos. A individualidade agrícola é como um homem invertido:
o sistema neuro-sensorial é a raiz, subterrânea. Nós vivemos na parte aérea, equivalente ao sistema
metabólico–motor, a barriga.
O sistema radicular recebe forças dos planetas distantes.
As partes aéreas dependem dos planetas próximos.
O silício no solo é o receptor das forças cósmicas mais distantes. A cenoura (raiz), por exemplo,
exige solo silicoso. O silício é o receptor, a argila é o condutor ascendente das forças cósmicas.
O cálcio no solo e as sutis substâncias calcárias homeopaticamente distribuídas no ar, sugam e
conduzem o elemento terrestre de volta ao solo. A planta forma e enriquece o seu solo graças ao efeito
cálcico, que suga, atrai, concentra.
Quanto ao calor, temo-lo de dois tipos: o calor morto, floral e foliar sobre o solo, relacionado aos
planetas próximos, e o calor vivo, radicular, no solo, ligado aos planetas mais distantes, sobretudo Saturno.
O mesmo se dá com o ar, supra e subterrâneo. Com a água e a terra ocorre o contrário. No solo, tornam–
se mais inertes, mais receptivas às forças cósmicas mais distantes, sobretudo no inverno, quando
predominam forças de cristalização, de estruturação, ou seja, de sintonização com as fontes mais distantes.
Forças de inverno são forças do frio, de cristalização, de estruturação.
A argila é o elemento ascensor dessas forças. No verão manifesta-se exuberância, atividade,
desgaste.
No inverno repouso, reestruturação, reorganização, recarga.
Na semente, a organização protéica cresce em complexidade até atingir um clímax. Neste ponto,
ou permanece em dormência ou caotiza-se para receber a atuação cósmica do seu arquétipo; este imprimese
nela, restabelece a ordem e dá origem a um novo organismo. Cada planta é imagem, é expressão de
uma constelação cósmica, é construída a partir de um arquétipo cósmico. Ao germinar, atua então o
elemento terrestre HÚMUS, desenvolvendo o corpo vegetal. O elemento cósmico atua via solo e raiz e
ascende até a periferia manifestando–se em cores, aromas, sabores, valor nutritivo, propriedades cósmicas,
astrais, sensoriais. O vermelho vincula–se a Marte, o amarelo, a Júpiter, o azul, a Saturno e o verde, ao
Sol. A flor em si é terrestre, sua tonalidade de cor é cósmica. A raiz unitária (cenoura) é cósmica, a
ramificada é terrestre. A cavalinha (90% de SiO2,) concentra o cósmico no caule. O solo arenoso favorece
a concentração de força cósmica na raiz ou no caule da batata (falsa raiz).
Cumpre observar tais aspectos no trabalho de melhoramento, penetrar na estrutura da Natureza. A
rocha cósmica (Si) acolhe a luz no solo. O húmus, terrestre (Ca), é opaco.
O animal traz o componente astral para o organismo agrícola. O correto dimensionamento de cada
criação é fundamental para constituir o organismo integrado e auto-sustentado. Qualquer aporte de
esterco de fora é como um remédio para uma agricultura doente.

A bipolaridade cósmico - terrestre é também visível no animal.
O dianteiro, cônico – cilíndrico é cósmico e capta atuações de Saturno, Júpiter e Marte; o traseiro,
arredondado, recebe a ação da Lua, Mercúrio e Vênus. O meio, o coração, centro do sistema rítmicocirculatório,
recebe a atuação do Sol. O Sol atua via sistema neuro-sensorial pelo dianteiro até o coração.
A Lua atua via sistema metabólico-motor. O animal, em posição invertida, com a cabeça na terra, é a
imagem da individualidade agrícola. Se a forrageira é rica em atuações cósmicas, o animal que a ingere
fornecerá o esterco adequado para o solo, fechando-se o ciclo, o chamado “ciclo fechado de nutrientes